...Note-se que a tranquilidade da cidade de Salvador era perturbada por um grupo de pessoas livres - chefiadas por uma mulher negra - que queriam libertar pessoas escravizadas, todas negras, africanas e africanos, filhos e filhas de africanos. Diante dessa afronta, a única resposta foi um comunicado de guerra com a criação de um "corpo de polícia" para caçar e matar negros.
Portanto, com uma história baseada na guerra, no racismo e no colonialismo, a Polícia Militar da Bahia atravessou dois séculos combatendo a revolta dos Malês, em 1835, reforçando a destruição de Canudos para saudar a república e se institucionalizar na ditadura militar. Alguns oficiais ainda tratam esse período tenebroso da história como REVOLUÇÃO e mantém suas raízes ideológicas e suas funções mecânicas de caçar, torturar, matar e eliminar o inimigo interno.
A polícia da Bahia foi a que mai matou em 2012, em números relativos, com 284 autos de resistência seguidos de morte registrados pela Polícia Militar e 60 pela Polícia Civil, além de 44 mortes em confrontos. Isso corresponde a uma taxa de 2,4 mortes por 100 mil habitantes do Estado. (Anuário de Segurança Pública, 2012).
Somos o único País do mundo fora de uma ditadura, num estado democrático, a aceitar a existência de uma segurança baseada na militarização. A ideia de proteger a sociedade do inimigo interno no Brasil ganha contorno de uma realidade insustentável fazendo com que países membros da ONU recomendasse ao Brasil a desmilitarização de sua polícia, o que gera, evidentemente, um grande constrangimento internacional.
Temos duas polícias no Brasil, o que não se justifica em nenhum aspecto de uma democracia. O próprio contingente policial, oprimido nos quartéis, com baixos salários, jornadas dobradas pelos bicos em portas de lojas e grupos paramilitares de execução e extermínio, impedidos do direito à greve, praças e soldados subalternizados por uma hierarquia tamanha na qual os oficiais gozam de privilégios e descontroles que os fazem, inclusive, ter força para manter como reféns os governos que não tocam na "caixa laranja" das organizações militares, verdadeiras irmandades fechadas, sem controle e cheias de poder entre esses que determinam a vida e a morte de um civil...
Esses foram alguns dos trechos da reportagem realizada por Andreia Beatriz Silva dos Santos, médica e Hamilton Borges Walê, os dois são coordenadores da Quilombo Xis-Ação Cultural Comunitária e articuladores da Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto. A matéria foi publicada no Especial Violência Policial da Caros Amigos de dezembro de 2013.
A FOTO
"Todos Negros", foto de Luiz Morier, 1983. Há 31 anos, sete negros são presos, amarrados pelo pescoço, em Grajaú, no Rio de Janeiro, suspeitos de serem bandidos. Depois foram soltos porque não tinham antecedentes criminais, nem estavam cometendo crime algum. Mas eram todos pretos, pobres e favelados. Os justiceiros de agora não são diferentes dos feitores de outrora, só aprimoram cada vez mais a barbárie.
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